Sete Vezes Um Fracasso (V)

C. R. Stam
 

A DISPENSAÇÃO A LEI

     Foi na altura em que Israel se encontrava a vaguear pelo deserto que Deus introduziu a Dispensação da Lei, primeiro dirigindo-se a Israel no Monte Sinai, e depois dando-lhes a Lei escrita, “posta pelos anjos na mão dum medianeiro”, nomeadamente, Moisés (Gál. 3.19; Cf. João 1.17).
 

     Em Êxo. 19.18 lemos que “todo o Monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo” e no Capítulo 20 somos informados que “Deus falou todas estas palavras (isto é, os Dez Mandamentos” (Ver.1), “estando o povo em pé de longe” (Ver.21).

     Em todos os Dez Mandamentos nada foi tão forte e solenemente enfatizado como a proibição de se ter ou de se adorar “outros deuses”, e quando Moisés se aproximou de Deus foi lembrado pela voz do próprio Deus:

     “Assim dirás aos filhos de Israel: vós tendes visto que Eu falei convosco desde os céus.

     "Não fareis outros deuses comigo; deuses de prata ou deuses de ouro não fareis para vós” (Vers. 22,23).

     Anos mais tarde Moisés desafiou a nação favorecida:

     “Porque, pergunta agora aos tempos passados, que te precederam desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra, desde uma extremidade do céu até à outra, se sucedeu jamais coisa tão grande como esta, ou se se ouviu coisa como esta?

     "Ou se algum povo ouviu a voz de Deus falando do meio do fogo, como tu a ouviste, ficando vivo?” (Deut. 32,33)

     Nunca coisa como esta tinha acontecido antes. O povo de Israel tinha sido notória e tremendamente honrado. Eles viram o Sinai a arder e sentiram a terra tremer quando Deus, o próprio Deus, lhes falara. Decerto que eles não necessitariam de ser lembrados de que não deviam adorar outros deuses ou ídolos de prata e de ouro. Como é que eles se poderiam esquecer?

     Ah, mas esqueceram-se – quase de seguida. Logo no início a nova dispensação, antes de Moisés ter mesmo descido do monte, uma coisa vergonhosa aconteceu. Encontramos a narrativa chocante em Êxo. 32.1:

     “Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, ajuntou-se o povo a Aarão, e disseram-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós: porque enquanto a este Moisés, a este homem que nos tirou da terra do Egipto, não sabemos o que lhe sucedeu”.

     Não há qualquer registo de que Aarão tivesse dito uma única palavra em protesto: na verdade, encontramo-lo a ordenar logo a recolha dos brincos do povo, a fim de poder fazer-lhes um bezerro de outro. E quando o bezerro de ouro fica consumado ouviu-lhe dizer o povo: “Este é o teu Deus, ó Israel” (Êxo. 32.2-4 Cf. Neem.9.18). Assim, quando Moisés desceu do Monte Sinai encontrou o povo a dançar, como os pagãos, à volta dum bezerro de ouro.

     Isto foi como a Dispensação da Lei começou. Será estranho, então, que termine não só com Israel a crucificar o filho de Deus, mas orgulhando-se do terrível feito depois de Ele ter ressuscitado de entre os mortos e se ter apresentado vivo “com muitas e infalíveis provas”? Não é de admirar que Estêvão, cheio do Espírito, tenha pronunciado sobre a sua nação a terrível acusação:

     “Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido: vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais.

     "A qual dos profetas não perseguiram vossos pais? Até mataram os que anteriormente anunciaram a vinda do Justo, do Qual vós agora fostes traidores e homicidas;

     "Vós que recebestes a lei por ordenação dos anjos, e não a guardastes” (Act. 7.51-53).

     Nós salvaguardamos aqui que isto de forma alguma indica que Israel tivesse sido pior que os Gentios, mas somente prova que mesmo quando Deus escolheu parte da humanidade e os abençoou acima de todos os outros, instruindo-os claramente quanto à Sua vontade, eles não conseguiriam melhores resultados que os restantes, o que só veio provar que os filhos de Israel também eram filhos de Adão. Assim lemos em Rom. 3.19:

     “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus”.

(Continua)

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